Substantivo Próprio

domingo, maio 08, 2005

A dor de um José

De longe, Zé era só mais um Zé na cena urbana. Bêbado. Deitado no chão. Olhos cerrados e mão esquerda na altura do rim. Pedi pro motorista do jornal parar. Bastou um dedo de prosa pra eu descobrir que seu estado não era conseqüência do excesso de cachaça.

Ao contrário, a pinga amortecia a dor cortante do câncer.E a dor maior, da solidão. Da injustiça. Da falta de sensibilidade do mundo
que passava quase pisando sobre ele. Rolo compressor.

O alagoano de 66 anos estava ali graças à carona da da ambulância do único hospital público de Jundiaí. Ali ao lado, o camburão azul e branco denunciava: a Guarda Municipal tinha ido buscar o migrante e zelar pela paz do bairro.

De mansinho, fui chegando perto. Fiquei de cócoras. A blusa do agasalho azul marinho estava levantada até a altura do peito. Olhei pras feridas naquela barriga e senti o mau cheiro. Vriei pro lado e, pronto, nova tentativa.

Mirei fundo nos olhos do velhote e perguntei o nome dele. "José". José de quê? - como se àquela altura do campeonato fosse preciso mesmo saber o sobrenome. "Só José", disse a voz rouca.

Sentei-me na calçada um instante. Os guardas me olharam torto, talvez para me lembrar de que não tinham o dia todo para ficar ali. Nem eu, oras. Mas o que importava?

E José me contou que chegara a Jundiaí à procura de um parente, do qual se lembrava pouco. Não o encontrou e, como não tinha pra onde ir, nem dinheiro pra voltar, ficou na rua.

Passou uma noite no mercado municipal, protegido do frio pelas folhas de jornal que conseguira com os donos das bancas de frutas. Enquanto ele falava, meu pensamento ia longe: José podia ter dormido coberto pelos textos que eu tinha escrito no diário em que eu trabalhava.


A barriga já tava
sarando e falei pro
médico me dar alta,
que eu cuidava.


A barriga continuava descoberta e aquilo me incomodava. Apesar do vento frio de outono, o sol batia na gente e fazia o cheiro daquelas feridas ficar quase insuportável. Com pouca vontade, José falou do câncer, que já nem sabia mais onde era. Disse que foi ao hospital por causa dos ferimentos.

- Fui internado, moça. Mas deu uma agonia ficar lá. A barriga já tava sarando e falei pro médico me dar alta, que eu cuidava. O doutor liberou, mas como a perna também tá meio ruim, pedi pro moço que solta as ambulância pra me trazer pra casa - explicou ele em casa, que era aquele pedaço de calçada.

Aconselhei José a procurar o posto de saúde do bairro. Mas os guardas disseram que o levariam de volta para o hospital de caridade. Caridade? Ri. E o fotógrafo que estava comigo lembrou do horário: ele estava proibido de fazer hora-extra.

Entrei no carro do jornal. Na redação, liguei para o responsável hospital e o "outro lado" - como chamamos no jargão jornalístico - era cheio de contradições. Ninguém se lembrava daquele Zé, mas diziam que ele tinha fugido, pra talvez fugir da culpa. Mas o Zé, aquele, ia voltar. E então?

Voltei pra casa com o peito apertado, não consegui dormir. Virando de um lado para outro, imaginei que o velhote não agüentaria muito tempo no hospital. Sairia de lá, nem que fosse, dessa vez sim, pra fugir.

Torci para aquele Zé ter forças para fugir, quem sabe, até Alagoas. Para encontrar alguém da família, nem que fosse a última coisa a fazer na vida. Mas talvez Zé não agüentasse, e voltasse para o mercado. Onde passaria mais uma madrugada embrulhado no jornal. Talvez coberto com a própria história.