Substantivo Próprio

domingo, maio 15, 2005

"A gente dá porque quer"

Uma viagem pela Igreja Universal do Reino de Deus, na avenida João Jorge, em Campinas

Nasci em uma família católica. Fui batizada, fiz primeira comunhão, aprendi a rezar. Cresci e, de repente, comecei a questionar alguns dogmas. Afastei-me da igreja, mas não de Deus. Curiosa inveterada, já vi coisas que até Ele duvida nessa seara abençoada. Li, visitei, fiz questão de sentir na pele.

Instigada pelo convite de Semana 3 – de escrever minhas impressões sobre um culto evangélico –, entrei dia desses numa igreja do gênero. Igreja Universal do Reino de Deus, na avenida João Jorge. De fora, parece um shopping center. O tamanho do templo faz o fiel lembrar o tempo inteiro que é pequeno, “um ninguém na multidão”, como se canta lá dentro.

Não entrei como repórter, querendo saber onde é usado o dízimo ou cheia de perguntas que para eles têm gosto de café requentado. Despi-me de pré-conceitos e pisei no templo como uma ovelha desgarrada, que procura abrigo – para ver o que aquele lugar e aquelas pessoas poderiam me oferecer.

A estrutura é profissional. Amplo estacionamento, lanchonete, livraria e dois banheiros ficam no subsolo do prédio, que abre suas portas logo depois das 6 horas e fecha, às vezes, depois das 23 horas. No primeiro andar há um salão, lugar para 4 mil pessoas no qual são realizadas diariamente as reuniões – cada dia com um tema.

São 18h15. Entro devagarinho e vou me aproximando do altar, onde cinco pastores vestidos de branco conversam com fiéis. Terça-feira é dia de vestir ao menos uma peça de roupa branca para ir ao culto. E quem me conta isso é Adriana*, uma moça bonita, sentada na turma do gargarejo. Ela está lá, guardando lugar desde as 17 horas. Freqüenta a igreja há dois anos, todos os dias. Chegou ali pensando em desistir da vida. “Foi a última porta na qual eu bati. E fui acolhida”, afirma.

Adriana tinha uma vida de fazer inveja – pelo menos aparentemente. Diplomada, tinha família, emprego e vida social. Era feliz, mas de uma felicidade vazia, me conta. Depois de ser assaltada, ameaçada e perder o dinheiro que tinha, acabou perdendo também a vontade de viver.

Mas Deus salva – e a mídia também. E a moça viu um dos programas de tevê da Igreja Universal – exibidos diariamente em tevê aberta – e resolveu procurar ajuda ali, onde tanta gente dizia ter sido ajudada.

Ela, como muitos dentro do templo, não faz jus à imagem que se prega por aí, de que evangélico é alguém sem instrução. No templo há desde pessoas sem nenhuma condição financeira ou estudo até donos de grifes no Cambuí, professores, médicos, doutores. “Eu me visto bem, me arrumo, estudo, trabalho. Mas tudo isso é para o meu Deus”, diz Adriana, do alto de um salto 8 que repica até o altar, pra onde vai me levando.

Pego a fila e, enquanto esperamos na escada de granito, vira e mexe alguém se ajoelha ao nosso lado, apóia os cotovelos nos degraus, abaixa a cabeça e a pousa entre as mãos, rezando alto como se assim ficasse mais fácil para Deus ouvir.

Fragilidade ou fraqueza?

Quando dou conta, Adriana já me pôs à frente de um pastor. Antes do culto é comum esses soldados do exército de Deus darem uma hora de seu tempo para atender fiéis e novatos, como eu era ali. Não minto nem invento. Digo ao pastor apenas que não tenho uma história de prostituição, vício ou falência para contar e que cheguei na igreja por curiosidade. “Ninguém doente na família?”, me pergunta. Não. “Tudo bem em casa?”, tenta novamente e encontra outra negativa. “Então está sem trabalho?”. Eu balanço a cabeça de um lado para o outro. “Então o que te trouxe aqui?”

Ele me dá as boas vindas e não preciso muito mais que 20 minutos de culto para notar que a indignação velada do pastor tem motivo: ali, sou um peixe fora d’água. A maioria dos fiéis chega à Universal com uma história muito crítica – de dor, sofrimento, angústia.

Três ou quatro conversas além da que tive com Adriana me mostram que só o fato de ser uma igreja com as portas abertas o dia todo já faz a diferença. “Se você chegar aqui precisando de ajuda, a qualquer hora do dia, haverá alguém pra te atender”, dizem.

A contrapartida não é pouca, mas quem se importa? “Dizem aí fora que eles tiram dinheiro da gente. Não são eles que tiram. A gente dá porque quer”, diz Adriana.

Como principiante, ninguém me abordou para falar sobre dízimo. Ninguém me perguntou sobre o meu holerite. Mas insistiram na necessidade de ser fiel aos propósitos. Ok, mas o que são propósitos, pergunto eu à minha “veterana”. “Se você tem alguém doente na família, você faz um sacrifício para essa pessoa ficar bem. Desprender-se do seu dinheiro é um sacrifício”, diz, contando que cada um dá o que pode. E que tem gente que pode, às vezes, até cifras de seis dígitos. Depois de duas horas de culto e três cultos numa semana – vi a sessão do descarrego, a celebração de louvor e adoração e a terapia do amor – a fragilidade da assembléia vai ficando cada vez mais evidente.

Não há crença de salvação apenas na voz em coro que grita “Queima! Queima!” para tirar o Satanás do corpo besuntado de sal no altar. A força do credo está também na dor das lágrimas e da oração de dona Luiza*, mãe de três filhos – um drogado, uma mãe solteira e outro, bom coração, mas desempregado. Na tentativa de Márcio e Luciana* reconstruírem seu casamento, que anda abalado depois de cinco anos e meio.

A fé ali naquele lugar impressiona. Arrepia. E atesta uma carência pungente, crescente no ser humano. Essa busca pelo alimento da alma.

Recobro a razão. Talvez eu seja mesmo uma filha rebelde e procure o alento divino. Mas estou ali pra fazer minha reportagem – que virou esta crônica. Procuro o pastor-responsável, pastor Alexandre. Ele sempre está em reuniões. Depois de três tentativas de encontrá-lo pessoalmente, ligo para tentar marcar entrevista e uma pastora sugere: “Mande um e-mail para ele”. E eu digo que meu receio é de que ele não responda. “O medo derrota as pessoas”, ouço.

Olho pro céu, evoco a benevolência divina. Mando e-mail, explico ao pastor que estou escrevendo sobre o culto, sobre a fé que me surpreendeu e que gostaria de mais informações sobre sua igreja. Mas ele é direto e afirma que “a Igreja Universal do Reino de Deus possui seus meios de comunicações próprios, como Rede Record, Rede Mulher, Rede Família, rádio e ‘A Folha Universal’”. “Não temos necessidade de divulgar nosso trabalho e nossas particularidades em outros meios que não sejam os nossos”, diz. Depois de uma segunda tentativa virtual, o pastor encerra o assunto: “A Igreja Universal não concederá fotos e nem informações”.

Até tento ir à igreja mais uma vez, perto da hora do culto. Mas o zelo com informações, números e imagens parece ser uma barreira intransponível. Desisto. Pego o elevador, vou até o subsolo e descubro que não tenho como sair. O estacionamento está lotado e a verdade lateja, nua e crua: até na casa do Senhor tem engarrafamento.

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* Nomes fictícios para preservar as fontes.

Publicada na revista Semana 3 em dezembro de 2004.

2 Comments:

  • Adoro o texto.

    By Anonymous Tharso, at 12:41 PM  

  • olá tnho um amigo que frequenta a universal em guarulhos sp que está passando por diversar situações dificeis e está hoje sendo ameaçado com altas dividas de carro casa quase a perca de tudo a conta dele é no bradesco banco 237>> agencia 1231 conta corrente >>> 97831-0 arnaldo o nome dele só estou mandando está mensagem pois ele quando estava bem até o final do ano 2008 ajudou muita gente que necessitava hoje ele quem precisa o endereço dele é rua nina n° 10 a jardim lenise guarulhos sp cep 07151700 fone para contato 98639943

    By Anonymous Anônimo, at 5:59 PM  

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