Substantivo Próprio

sexta-feira, maio 27, 2005

Ninguém fez nada

Na manhã da última quarta-feira, a professora Teresa (*) sentiu-se num beco sem saída. O dia começou como outro qualquer, de uma semana qualquer. Terminou em assalto, ameaça de morte, humilhação, susto e um sentimento de impotência e revolta, que até ontem à tarde latejava forte. Feito a dor de cabeça provocada pela noite mal dormida.

Anteontem, Teresa engrossou as estatísticas da violência. Apanhou para chegar lá. Mas doem menos os hematomas nas costas que a certeza de que seu Boletim de Ocorrência será só mais um entre os quase 3.400 registrados mensalmente pela Polícia Civil, com os roubos de veículos e os chamados ‘roubos comuns’, em Campinas.

Eu tenho sangue correndo
nas veias. É absurdo esse
risco ali, na porta de uma
escola infantil. Isso não
revolta?

Só no primeiro trimestre de 2005, 2.349 roubos diversos e 1.273 roubos de veículos foram registrados pela mesma Polícia Civil, segundo aponta levantamento da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Trimestre que vem, Teresa vai aparecer no balanço também, tão anônima quanto se sente agora, depois de perder RG, CPF, título de eleitor, carteira de habilitação, cartões de banco, talões de cheque.

Fim da linha

A manhã estava escura quando, logo às 6, a professora levantou-se da cama. Ela ainda não sabia sobre os estragos que a chuva da madrugada tinham causado na cidade e em toda a região. Seguiu a rotina e passou o café. Engoliu rapidamente um pedaço de pão, escovou os dentes, beijou o marido e as duas filhas. Ligou o Corsa e foi para a escola infantil próxima à Praça de Esportes Tancredão, no Jardim Novo Campos Elíseos. Ela dá aulas lá há 17 dos 28 anos que trabalha na rede municipal de ensino. Mas não fazia idéia do que a esperava naquele dia.

Pelo caminho, foi pensando na aluna que deixara de ir ao passeio no shopping, na terça-feira, por falta do pagamento da taxa de transporte. Queria tê-la levado. Mas não podia assumir as despesas de todas as crianças carentes para as quais dá aula. Ali, entre os alunos com idades de 3 a 6 anos, muitos vêm de famílias de baixa renda. A maioria.

A aula começava às 7h30. Ao passar em frente ao portão principal da escola – pelo qual entram as crianças – pensou que seria melhor somente virar a esquina e estacionar o carro por ali mesmo, perto da entrada de funcionários.

Isso porque, para chegar ao estacionamento de professores, improvisado em uma quadra de esportes descoberta, teria que seguir até o fim da rua e isso seria muito arriscado: o fim dela fica em frente a um córrego e, ali, o asfalto cedeu. Ficou quase impossível passar de carro pelo trecho, depois da tempestade de quarta-feira.

Enquanto o poder público aguarda a licitação para consertar a cratera – as obras começam em no máximo 30 dias, segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura – os professores dão um jeito e estacionam seus veículos onde conseguem.

Ao parar o carro perto do pequeno portão de entrada de funcionários, Teresa percebeu que dois rapazes a observavam. “Eles começaram a se aproximar e eu vi que era comigo. Fiquei com medo de ser seqüestrada e saí do carro rapidamente.”

A professora até apressou os passos, mas ouviu um dos homens gritar: “Não corre não, filha da p...”. Tentou bater o portão, mas um dos assaltantes se adiantou, e a impediu. Ela já estava subindo a escadaria que a levaria para o pátio, quando o mesmo homem a puxou pela blusa. Arrastou-a escada abaixo até perto do portão, em segundos.

“Ele segurava um revólver pequeno, prateado.” Jogou-a de bruços e bateu forte em suas costas. Teresa não sabe se foi com a mão ou a arma. Chorava enquanto o rapaz, já ajudado pelo parceiro, quebrou a alça da bolsa que ela carregava a tiracolo, num puxão só.

Nem tinha percebido, mas a chave do carro ainda estava em uma de suas mãos quando ela caiu no chão. Jogou-a longe. Um dos rapazes pegou. Antes de deixar a rua da escola, os assaltantes bateram o Corsa num veículo que estava virando a esquina. Fugiram.

Impotência

Duas funcionárias da escola ficaram paralisadas enquanto assistiam ao ato brutal. “Não sabíamos o que fazer.” Viviane (*), também professora e amiga de Teresa, não quer mais voltar ao local, bem como as outras seis mulheres que dão aulas ali. A diretora, vítima de assalto no mesmo lugar, no ano passado, não sabe mais a quem recorrer.

Na manhã de quarta, não havia policiais no bairro. As funcionárias ligaram para o 190. Ninguém apareceu. Viviane pegou seu carro e levou Teresa a duas delegacias, até encontrarem, às 9 horas, “o lugar certo para registrar o Boletim de Ocorrência”.

Também não havia guardas para zelar pelo prédio municipal. De acordo com o coordenador do posto da GM que responde por aquela região, todos os dias há ronda escolar nos horários de pico (entrada e saída de alunos). A infra-estrutura da Regional 8, porém, contabiliza apenas 40 homens e três viaturas, para 74 bairros daquelas redondezas.

Silêncio e revolta

Teresa engole seco. Pára de contar a história e enxuga as lágrimas. Os olhos de seu marido marejam. Ela está traumatizada. Ele, alterna momentos de ódio e resignação. À mesa redonda, no centro da sala de estar, paira o silêncio - alguns segundos. “Somos batalhadores. Ela não reagiu. E nós não vamos procurar quem fez isso. Não queremos consertar a sociedade. Mas quem pode fazer isso não está fazendo”, diz o marido da professora.

A família já foi vítima de assalto, há muitos anos. Levaram tudo o que eles tinham em casa. Outra vez, ao chegarem em casa à noite, o marido e uma das filhas de Teresa se depararam com um rapaz armado. A garota estava fora do carro; o pai, dentro. “Não tive dúvida. Joguei o carro em cima do cara. Eu queria esmagá-lo no muro. Ele fugiu. No dia seguinte, ainda tive que ouvir do policial que dei sorte. Perguntei a ele se ele tinha mulher, filhos. Se eu não puder salvar minha família, que tipo de homem sou eu?”

Talvez o policial que pediu para o marido de Teresa não reagir tenha se baseado em casos como o do engenheiro civil Franciso César Bortolai, de 51 anos, morto em dezembro de 2004 com um tiro no peito ao chegar em casa, no Jardim Santa Odila, e reagir a um assalto. “Mas eu tenho sangue correndo nas veias. Não aconteceu o pior. Nem daquela vez, nem na escola, graças a Deus. Agora, é absurdo esse risco ali, na porta de uma escola infantil. Isso não revolta?”

Ontem, enquanto muitos contabilizavam os prejuízos causados pela forte chuva de quarta-feira, sob o sol ameno do outono, a professora fechou as janelas de casa. Passou corrente e cadeado no portão. Trancou a porta. Voltou mentalmente à escuridão da manhã quarta-feira. E ao beco sem saída. Na tentativa de reencontrar sua identidade - não a de papel.

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(*) nomes fictícios, para preservar as fontes
Matéria publicada no Correio Popular, de Campinas/SP, no dia 27/05/2005