Substantivo Próprio

segunda-feira, maio 09, 2005

Pelas mãos de Mário

"Jão" e eu rodamos muito com o carro do jornal na Aclimação naquele dezembro de 2001 até encontrar a casa do seo Mário. Jão era o motorista e eu, a repórter de um suplemento tentando achar uma história. Depois de algumas voltas e mais ou menos meia hora, descobrimos não só o prédio antigo, muito discreto, da Rua Batista Cepellos, mas um artista nato ali dentro.

Desenhista desde criança, Mário - que é Beltrame, de sobrenome - já usou creiom e tinta a óleo para expressar sua sensibilidade no papel ou na tela. Há quase 20 anos, conheceu um mundo além do lápis e do pincel. E, enquanto me contava essa e outras histórias, a agulha de arame incandescente do pirógrafo, ali na sua mão firme, transformava pedaços de madeira em arte.

Fico louco quando
alguém fala que isso
tudo é artesanato

A arte do seo Mário beira o acadêmico. Se engana quem imagina aquelas peças com furinhos escuros que servem apenas para delinear um contorno banal, que queima a madeira. Os traços aprendidos pelo autodidata na infância e aperfeiçoados aos 13 anos, nas aulas de creiom com o professor Higínio Acquaroni, são clássicos.

- Não uso o pirógrafo muito quente, para não deixar a madeira com relevo - explica Mário, enquanto conversamos.

A técnica dá certo. Eu, que já me arrisquei a pintar, admiro a facilidade do seo Mário, que não revela a idade mas passa dos 60. É fácil ficar vidrada ali, no movimento da ponta de arame da caneta elétrica correndo macio como grafite. Sem ferir a madeira. Devagar, o rosto de Cora Coralina, ganha luz e sombra. Ganha vida na reprodução do retrato, feita no quartinho de empregada do apartamento antigo.

Gal Costa, Arrelia, Cauby Peixoto, Pixinguinha, Clementina de Jesus e até o ex-presidente João Figueiredo me olham, do alto das paredes da sala.

- Fico louco quando alguém fala que isso tudo é artesanato. - ralha seo Mário, perseverante na tentativa de popularizar a pirogravura artística.

É um anônimo premiado. O Ébrio - um de seus quadros - e Latoya, o rosto da irmã de Michael Jackson e a gravura preferida do artista, já estiveram no topo do hanking de salões internacionais da década de 90.

Naquele dezembro de 2001, porém, o artista dividia seu tempo entre pirografar - seu grande prazer - e dar aulas de pintura a óleo no salão da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Aclimação. Afinal, como seo Mário repetia, bem-humorado, arte mesmo é viver da aposentadoria.

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A reportagem sobre Mário Beltrame foi publicada no Estadão em 28 de dezembro de 2001, Editoria de Cidades, Suplemento Seu Bairro Sul. Mas aqui virou crônica, história e substantivo próprio.

1 Comments:

  • esse texto é legal

    By Anonymous Anônimo, at 2:05 PM  

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