Não deixe o samba morrer
— Entra, senta. Tô fazendo café, você quer?
Dali do sofá coberto com uma manta marrom era possível ver, por uma fresta da porta da sala, entreaberta, o cinza do céu entre as grades do portão de ferro. Vinha um vento cortante da rua. Nada parecia melhor que um café passado no coador de pano para esquentar aquela manhã de terça-feira.
— Mas aqui é coisa simples, tá? Coador e copo de requeijão.
— Prefiro... fico mais à vontade.
— Minha família brinca que não tem nada melhor do que bater papo em volta da mesa posta com café e bolo de buraco.
Bolo de buraco é aquele feito na forma com buraco no meio. Um pão de ló com gosto de infância. Bolo de bolo, como os adultos costumam explicar para encerrar a avalanche de perguntas da criançada. Massa simples, feito Aureluce. Saborosa, feito sua história.
A mulher negra sentada ali na cadeira da sala pequena sorri um sorriso largo, que esconde a idade, como ela faz questão. Aureluce é um rosto na multidão, mas hoje em dia, um rosto mais conhecido do que ela mesma poderia sonhar um dia. Ontem mesmo estava no coreto da Praça Carlos Gomes, cantando em público.
Seu tio José das Neves Balthazar foi compositor conhecido em Campinas e, embora tivesse nascido numa família de músicos, todo dia ela fazia tudo igual: dividia seu tempo entre o marido, os filhos e um cargo na Unicamp. E só.
Sempre gostou de cantar, mas fazia isso somente no coral da família criado pela avó, Maria das Neves, há 43 anos. Até que uma amiga a incentivou a inscrever-se num concurso de calouros de um bar da cidade, em 1999.
— Deus do céu, que cê tá fazendo aqui nessa cidade, mulhé?
Aureluce olhou com uma ponta de raiva e outra de desconfiança. Quem era aquele sujeito pra chegar assim, sem pedir licença?
— Sou daqui, moro aqui... qualé a tua, hein?
José Duarte Martins, um mulato bem apessoado que apareceu em 2003 no Tonico’s Boteco — reduto de sambistas em Campinas — tinha dois interesses, na verdade: produtor musical natural do Rio de Janeiro, tinha se encantado com a voz de Aureluce, conhecida na noite campineira àquela altura. E, réu confesso meses depois, com suas curvas também.
Mas a relação dos dois não passou do profissional. Até porque de rapaz folgado Duarte tinha só o gingado da voz. E admitiu a Aureluce o quanto lhe admirou o jeito de difícil nela, uma mulher que aparentava ter bem menos experiência do que na verdade escondia ali, na idade oculta. “Quando ele viu minha reação, disse: tô sentindo que isso vai dar certo. Você é profissional e é disso que eu preciso.”
Duarte propôs o inimaginável: tirar Aureluce da noite e colocá-la na mídia.
Estava posta a encruzilhada: deixar o marido e os filhos, seguir para o Rio de Janeiro sozinha e mudar o compasso da vida ou achar mesmo que aquilo tudo era demais para ela, uma aposentada de uma universidade pública.
Respirou fundo. Pensou. Seu relacionamento com o marido não andava lá aquelas coisas. Tomou coragem e pediu: esquece nosso amor, vê se esquece. Cada tábua que caía, doía no coração. No de Aureluce e talvez no de seu marido. Os três filhos, embora enciumados, compreenderam. Era o sol a trazer bom dia à mãe batalhadora que tinham.
E foi ali, um tanto perto das águas da Guanabara, que Aureluce nasceu de vez para o samba. Não só por gosto, afinal, no samba o destino é quem quer. E vida tem os seus revezes, já dizia o Chico Brito de Wilson Batista. Aquele era o revés de uma Aureluce apagada com o tempo.
Mesmo assim a cantora aceitou o desafio. Só não contava com a morte de Duarte, tão logo terminaram de gravar o CD.
A lágrima clara sobre a pele escura faz pausar a fala rouca e ansiosa. A chuva que cai lá fora é a única música ali, naquele momento. Aureluce não chora de pesar, porque a vida continua, diz ela. Mas de pensar na rapidez da reviravolta, na chance que ganhou ali, já longe da mocidade. E no breque ingrato no samba da vida.
Depois da morte de seu produtor musical — uma espécie de “anjo da guarda”, como ela ainda chama Duarte - Aureluce sacodiu a poeira e deu a volta por cima. Mês que vem, lança Conquista, ainda que o CD seja uma produção independente.
Não pretende abandonar o caminho, nem se o tempo avisar que já não pode mais cantar. Então vai, Aureluce, não deixe o samba morrer. Até quando puder. Afinal, há de existir um sambista mais novo, a quem entregar o seu anel de bamba um dia.
--
Matéria publicada no Correio Popular, de Campinas/SP, no dia 29/10/2005
Dali do sofá coberto com uma manta marrom era possível ver, por uma fresta da porta da sala, entreaberta, o cinza do céu entre as grades do portão de ferro. Vinha um vento cortante da rua. Nada parecia melhor que um café passado no coador de pano para esquentar aquela manhã de terça-feira.
— Mas aqui é coisa simples, tá? Coador e copo de requeijão.
— Prefiro... fico mais à vontade.
— Minha família brinca que não tem nada melhor do que bater papo em volta da mesa posta com café e bolo de buraco.
Bolo de buraco é aquele feito na forma com buraco no meio. Um pão de ló com gosto de infância. Bolo de bolo, como os adultos costumam explicar para encerrar a avalanche de perguntas da criançada. Massa simples, feito Aureluce. Saborosa, feito sua história.
A mulher negra sentada ali na cadeira da sala pequena sorri um sorriso largo, que esconde a idade, como ela faz questão. Aureluce é um rosto na multidão, mas hoje em dia, um rosto mais conhecido do que ela mesma poderia sonhar um dia. Ontem mesmo estava no coreto da Praça Carlos Gomes, cantando em público.
Seu tio José das Neves Balthazar foi compositor conhecido em Campinas e, embora tivesse nascido numa família de músicos, todo dia ela fazia tudo igual: dividia seu tempo entre o marido, os filhos e um cargo na Unicamp. E só.
Sempre gostou de cantar, mas fazia isso somente no coral da família criado pela avó, Maria das Neves, há 43 anos. Até que uma amiga a incentivou a inscrever-se num concurso de calouros de um bar da cidade, em 1999.
Navalha no bolso
— Deus do céu, que cê tá fazendo aqui nessa cidade, mulhé?
Aureluce olhou com uma ponta de raiva e outra de desconfiança. Quem era aquele sujeito pra chegar assim, sem pedir licença?
— Sou daqui, moro aqui... qualé a tua, hein?
José Duarte Martins, um mulato bem apessoado que apareceu em 2003 no Tonico’s Boteco — reduto de sambistas em Campinas — tinha dois interesses, na verdade: produtor musical natural do Rio de Janeiro, tinha se encantado com a voz de Aureluce, conhecida na noite campineira àquela altura. E, réu confesso meses depois, com suas curvas também.
Mas a relação dos dois não passou do profissional. Até porque de rapaz folgado Duarte tinha só o gingado da voz. E admitiu a Aureluce o quanto lhe admirou o jeito de difícil nela, uma mulher que aparentava ter bem menos experiência do que na verdade escondia ali, na idade oculta. “Quando ele viu minha reação, disse: tô sentindo que isso vai dar certo. Você é profissional e é disso que eu preciso.”
Duarte propôs o inimaginável: tirar Aureluce da noite e colocá-la na mídia.
“Foi só o que ele me falou:
semana que vem volto e
te levo pro Rio. Vamos
gravar um CD. Topas?
Pedras pisadas no cais
Estava posta a encruzilhada: deixar o marido e os filhos, seguir para o Rio de Janeiro sozinha e mudar o compasso da vida ou achar mesmo que aquilo tudo era demais para ela, uma aposentada de uma universidade pública.
Respirou fundo. Pensou. Seu relacionamento com o marido não andava lá aquelas coisas. Tomou coragem e pediu: esquece nosso amor, vê se esquece. Cada tábua que caía, doía no coração. No de Aureluce e talvez no de seu marido. Os três filhos, embora enciumados, compreenderam. Era o sol a trazer bom dia à mãe batalhadora que tinham.
E foi ali, um tanto perto das águas da Guanabara, que Aureluce nasceu de vez para o samba. Não só por gosto, afinal, no samba o destino é quem quer. E vida tem os seus revezes, já dizia o Chico Brito de Wilson Batista. Aquele era o revés de uma Aureluce apagada com o tempo.
Solidão, lava que cobre tudo
“Quando cheguei ao Rio,
cantei composições inéditas
para o CD. Estava feliz.
Mas me sentia sozinha.
Mesmo assim a cantora aceitou o desafio. Só não contava com a morte de Duarte, tão logo terminaram de gravar o CD.
A lágrima clara sobre a pele escura faz pausar a fala rouca e ansiosa. A chuva que cai lá fora é a única música ali, naquele momento. Aureluce não chora de pesar, porque a vida continua, diz ela. Mas de pensar na rapidez da reviravolta, na chance que ganhou ali, já longe da mocidade. E no breque ingrato no samba da vida.
Depois da morte de seu produtor musical — uma espécie de “anjo da guarda”, como ela ainda chama Duarte - Aureluce sacodiu a poeira e deu a volta por cima. Mês que vem, lança Conquista, ainda que o CD seja uma produção independente.
Não pretende abandonar o caminho, nem se o tempo avisar que já não pode mais cantar. Então vai, Aureluce, não deixe o samba morrer. Até quando puder. Afinal, há de existir um sambista mais novo, a quem entregar o seu anel de bamba um dia.
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Matéria publicada no Correio Popular, de Campinas/SP, no dia 29/10/2005

9 Comments:
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