<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-14576618</id><updated>2011-08-21T11:31:12.991-03:00</updated><title type='text'>Substantivo Próprio</title><subtitle type='html'>Sempre ouvi nas redações onde trabalhei que  jornalista precisa brigar diariamente com a rotina pra não deixar o jornal chato. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;

Mas a correria acaba engolindo todo mundo e, muitas vezes, a deliciosa história da dona Fulana, que a gente vê todo dia trabalhando ali na esquina, passa despercebida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;

Acho que os jornais deveriam ter um espaço só pra contar essas histórias. E, enquanto isso não acontece, esse canto servirá pra isso. Bem-vindo!</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://substantivoproprio.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14576618/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://substantivoproprio.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Tatiana Fávaro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00905213375448839315</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>8</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14576618.post-113137010241910899</id><published>2005-11-07T11:23:00.000-02:00</published><updated>2005-11-07T11:40:06.736-02:00</updated><title type='text'>Não deixe o samba morrer</title><content type='html'>— Entra, senta. Tô fazendo café, você quer? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dali do sofá coberto com uma manta marrom era possível ver, por uma fresta da porta da sala, entreaberta, o cinza do céu entre as grades do portão de ferro. Vinha um vento cortante da rua. Nada parecia melhor que um café passado no coador de pano para esquentar aquela manhã de terça-feira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Mas aqui é coisa simples, tá? Coador e copo de requeijão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Prefiro... fico mais à vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Minha família brinca que não tem nada melhor do que bater papo em volta da mesa posta com café e bolo de buraco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bolo de buraco é aquele feito na forma com buraco no meio. Um pão de ló com gosto de infância. Bolo de bolo, como os adultos costumam explicar para encerrar a avalanche de perguntas da criançada. Massa simples, feito Aureluce. Saborosa, feito sua história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher negra sentada ali na cadeira da sala pequena sorri um sorriso largo, que esconde a idade, como ela faz questão. Aureluce é um rosto na multidão, mas hoje em dia, um rosto mais conhecido do que ela mesma poderia sonhar um dia. Ontem mesmo estava no coreto da Praça Carlos Gomes, cantando em público.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu tio José das Neves Balthazar foi compositor conhecido em Campinas e, embora tivesse nascido numa família de músicos, todo dia ela fazia tudo igual: dividia seu tempo entre o marido, os filhos e um cargo na Unicamp. E só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre gostou de cantar, mas fazia isso somente no coral da família criado pela avó, Maria das Neves, há 43 anos. Até que uma amiga a incentivou a inscrever-se num concurso de calouros de um bar da cidade, em 1999. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;h3&gt;Navalha no bolso&lt;/h3&gt;&lt;br /&gt;— Deus do céu, que cê tá fazendo aqui nessa cidade, mulhé?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aureluce olhou com uma ponta de raiva e outra de desconfiança. Quem era aquele sujeito pra chegar assim, sem pedir licença?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Sou daqui, moro aqui... qualé a tua, hein?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;José Duarte Martins, um mulato bem apessoado que apareceu em 2003 no Tonico’s Boteco — reduto de sambistas em Campinas — tinha dois interesses, na verdade: produtor musical natural do Rio de Janeiro, tinha se encantado com a voz de Aureluce, conhecida na noite campineira àquela altura. E, réu confesso meses depois, com suas curvas também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a relação dos dois não passou do profissional. Até porque de rapaz folgado Duarte tinha só o gingado da voz. E admitiu a Aureluce o quanto lhe admirou o jeito de difícil nela, uma mulher que aparentava ter bem menos experiência do que na verdade escondia ali, na idade oculta. “Quando ele viu minha reação, disse: tô sentindo que isso vai dar certo. Você é profissional e é disso que eu preciso.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duarte propôs o inimaginável: tirar Aureluce da noite e colocá-la na mídia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;“Foi só o que ele me falou: &lt;br /&gt;semana que vem volto e &lt;br /&gt;te levo pro Rio. Vamos &lt;br /&gt;gravar um CD. Topas?&lt;/blockquote&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;h3&gt;Pedras pisadas no cais&lt;/h3&gt;&lt;br /&gt;Estava posta a encruzilhada: deixar o marido e os filhos, seguir para o Rio de Janeiro sozinha e mudar o compasso da vida ou achar mesmo que aquilo tudo era demais para ela, uma aposentada de uma universidade pública.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respirou fundo. Pensou. Seu relacionamento com o marido não andava lá aquelas coisas. Tomou coragem e pediu: esquece nosso amor, vê se esquece. Cada tábua que caía, doía no coração. No de Aureluce e talvez no de seu marido. Os três filhos, embora enciumados, compreenderam. Era o sol a trazer bom dia à mãe batalhadora que tinham. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi ali, um tanto perto das águas da Guanabara, que Aureluce nasceu de vez para o samba. Não só por gosto, afinal, no samba o destino é quem quer. E vida tem os seus revezes, já dizia o Chico Brito de Wilson Batista. Aquele era o revés de uma Aureluce apagada com o tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;h3&gt;Solidão, lava que cobre tudo&lt;/h3&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;“Quando cheguei ao Rio, &lt;br /&gt;cantei composições inéditas&lt;br /&gt;para o CD. Estava feliz. &lt;br /&gt;Mas me sentia sozinha.&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo assim a cantora aceitou o desafio. Só não contava com a morte de Duarte, tão logo terminaram de gravar o CD. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lágrima clara sobre a pele escura faz pausar a fala rouca e ansiosa. A chuva que cai lá fora é a única música ali, naquele momento. Aureluce não chora de pesar, porque a vida continua, diz ela. Mas de pensar na rapidez da reviravolta, na chance que ganhou ali, já longe da mocidade. E no breque ingrato no samba da vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois da morte de seu produtor musical — uma espécie de “anjo da guarda”, como ela ainda chama Duarte - Aureluce sacodiu a poeira e deu a volta por cima. Mês que vem, lança Conquista, ainda que o CD seja uma produção independente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pretende abandonar o caminho, nem se o tempo avisar que já não pode mais cantar. Então vai, Aureluce, não deixe o samba morrer. Até quando puder. Afinal, há de existir um sambista mais novo, a quem entregar o seu anel de bamba um dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:85%;" &gt;--&lt;br /&gt;Matéria publicada no Correio Popular, de Campinas/SP, no dia 29/10/2005&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14576618-113137010241910899?l=substantivoproprio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://substantivoproprio.blogspot.com/feeds/113137010241910899/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14576618&amp;postID=113137010241910899&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14576618/posts/default/113137010241910899'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14576618/posts/default/113137010241910899'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://substantivoproprio.blogspot.com/2005/11/no-deixe-o-samba-morrer.html' title='Não deixe o samba morrer'/><author><name>Tatiana Fávaro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00905213375448839315</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14576618.post-112778266457952673</id><published>2005-09-26T21:49:00.000-03:00</published><updated>2005-11-07T11:39:39.670-02:00</updated><title type='text'>Amiga da morte</title><content type='html'>Assim, de algum lugar que não pôde ser vista, surgiu Janete. A mulher baixa, negra, tronco largo e cabelos penteados para trás, presos com uma tiara, apareceu de trás de uma sepultura, feito assombração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, era o túmulo do prefeito Antonio da Costa Santos o destino naquele dia 10, data em que se completava o quarto ano sem Toninho, assassinado em setembro de 2001. A mãe do prefeito morto já tinha ido levar flores e limpar o túmulo do filho um dia antes, como costuma fazer freqüentemente. Mas àquela hora da manhã, perto das 9, o Cemitério da Saudade estava vazio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;"A senhora deve&lt;br /&gt;estar procurando&lt;br /&gt;o túmulo do&lt;br /&gt;Toninho, só pode&lt;br /&gt;ser.&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Janete desculpou-se pelo susto, sentou-se sobre a pedra de mármore de um jazigo próximo ao do prefeito. Respirou fundo. Enquanto mexia na bermuda vermelha, tirando um fiapinho aqui e outro acolá, meio cabisbaixa, disse que setembro era um mês de lembranças dolorosas para ela não só porque sua família toda votou, confiou e acreditou em Toninho. Em 8 de setembro de 1996, Janete Salvador perdeu três filhos de uma só vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um domingo. Ela e o marido, Neife, estavam no sítio de um familiar em Monte Mor com os filhos. O dia estava quente e, embora Neife Junior soubesse nadar, a mãe ficou preocupada quando ele decidiu ir para a lagoa, dar um mergulho. O pai deixou e o garoto de 20 anos prometeu cuidar das irmãs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;“Senti um calor&lt;br /&gt;no meu corpo.&lt;br /&gt;Desmaiei.&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pais ficaram no rancho. O garoto entrou segurando as irmãs Vanessa, de 12 anos, e Camila, de 11. Foi quando Rodrigo, sobrinho de Janete, saltou sobre as costas do primo e os quatro afundaram. Rodrigo foi retirado da lagoa inconsciente. Neife, Vanessa e Camila estavam mortos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ouviu o grito do marido, Janete desceu a ladeira que separava a casa da lagoa e, ao ver os três corpos estendidos no chão, caiu de joelhos com as mãos pra cima, rogando piedade a um Deus que, ali, parecia cruel.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14576618-112778266457952673?l=substantivoproprio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://substantivoproprio.blogspot.com/feeds/112778266457952673/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14576618&amp;postID=112778266457952673&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14576618/posts/default/112778266457952673'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14576618/posts/default/112778266457952673'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://substantivoproprio.blogspot.com/2005/09/amiga-da-morte.html' title='Amiga da morte'/><author><name>Tatiana Fávaro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00905213375448839315</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14576618.post-112164800996185580</id><published>2005-07-03T21:39:00.000-03:00</published><updated>2005-07-18T00:53:24.666-03:00</updated><title type='text'>Iracema está inerte</title><content type='html'>Entre os casarões e sobrados da Rua Reverendo Miguel Rizzo Junior, no Jardim Pacaembu, fica o número 256, uma casinha simples, mais cuidada do que bonita. Cheia de plantas, apesar da pouca luminosidade. Ali em frente, na manhã do último dia 22, uma quarta-feira, Iracema Lorenzette colou o rosto nas grades do portão para ver o movimento na rua — coisa que não fazia há mais de 23 anos. No semblante da mulher sexagenária havia tão pouca luz quanto na garagem e nos cômodos. A casa estava vazia. O olhar de Iracema também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia 13, perdeu a filha Kellen Cristina Ribeiro. Uma garota de 21 anos no corpo de uma menina de 11, 12 no máximo. Pelo atestado de óbito, foram insuficiência respiratória, pneumonia e caquexia (desnutrição profunda) que levaram Kellen. Segundo os médicos, foi a conseqüência máxima da leucodistrofia, uma doença rara e degenerativa que se manifestou quando ela tinha 5 anos. Para Iracema, foi Deus, “que finalmente deixou-a descansar”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem já perdeu um filho diz que essa é dor que não se questiona, nem se mensura. Iracema perdeu dois. E sua dor começou há 23 anos, quando o filho mais velho, James, deu os primeiros sinais da mesma doença. Perto dos 6 anos, o menino não tinha coordenação motora. Seus passos eram cambaleantes. A voz de quem já falava quase como gente grande foi sumindo aos poucos, até se tornar ruído. E silêncio, em dezembro de 2000.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Iracema não sabe o que fazer, para onde ir, nem se tem forças para ajudar outras famílias — embora tenha conhecimento de causa e experiência. Está inerte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo calejada, dispõe-se a falar. E a tentar entender o motivo de ter sido sorteada nesta loteria ingrata. Loteria da qual também foi vítima Michaela Odone, quando descobriu que seu único filho, Lorenzo, era portador de um dos dez tipos existentes de leucodistrofia, em 1984. Na época, Lorenzo tinha 5 anos de idade e expectativa de vida de mais dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;Quem cuidou deles&lt;br /&gt;foi a mãe. Confesso&lt;br /&gt;que acabei fugindo...&lt;br /&gt;Por medo, tristeza,&lt;br /&gt;não sei. Não consegui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/blockquote&gt;O casal italiano Michaela e Augusto deixou todos os afazeres para descobrir de onde vinha a doença. Marido e mulher tornaram-se autodidatas e descobriram uma combinação de duas gorduras capaz de estabilizar os índices de substâncias que corróem a mielina, uma espécie de fita isolante sem a qual os nervos não transmitem impulsos ao cérebro. A obstinação dos Odone pela conservação da vida do filho salvou outras crianças. E inspirou o filme O Óleo de Lorenzo (1992), assistido por Iracema a pedido de um dos tantos médicos que visitou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na loteria da leucodistrofia, um em cada 30 mil nascidos é escolhido — número registrado na Escandinávia, região na qual a doença é mais freqüente. No Brasil, as estatísticas são conflitantes. Mas estudos apontam que qualquer criança concebida por pais portadores tem 50% de chance de ser portadora, o que não quer dizer que será afetada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo não tendo as condições financeiras dos Odone, Iracema também deixou tudo o que considerava importante para cuidar de James e Kellen. Para conseguir as doses caras de medicamentos como o Ensure Plus HN e o complexo alimentar Nutrison - que levavam os R$ 400,00 da pensão e todas as doações. Deixou até o marido, Jair Ribeiro, que segundo ela “não agüentou a pressão”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jair admite: foi difícil ver os filhos se calarem aos poucos. Não conseguirem se alimentar. Perderem, pouco a pouco, a capacidade de enxergar o mundo aqui fora. “Quem cuidou deles foi a mãe. Confesso que acabei fugindo dos assuntos relacionados a eles. Por medo, tristeza, não sei. Não consegui.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto pôde, Iracema batalhou. Nem sempre foi forte. Certa tarde, saiu e comprou veneno para ratos. Estava determinada a acabar com todo aquele sofrimento, matando James, Kellen e depois tomando a sua dose. Teve uma forte vertigem. Caiu. Levantou-se e jogou tudo fora. Ajoelhou-se em frente aos dois e chorou, pedindo perdão. Hoje, conta a história cabisbaixa, envergonhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agradecida pela ajuda da população. De Campinas, de cidades vizinhas. Pessoas que doaram alimentos, medicamentos e cuidaram até de algumas de suas contas desde 1997, quando uma reportagem publicada pelo Correio Popular contou seu drama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascida em Cosmópolis, Iracema chegou a Campinas ainda menina. Foi mãe de Wilson e Marisa, filhos de outro pai, ainda na adolescência. Depois, conheceu Jair. Quando ele foi embora, James e Kellen já estavam doentes. Nunca mais quis saber de outro amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A leucodistrofia deu trégua para Jair e Clayton, os filhos saudáveis de Iracema e Jair. Hoje, com 25 e 23 anos respectivamente, um trabalha e o outro estuda. Como viram a mãe passar a vida cuidando dos irmãos, sabem se virar sozinhos. E agora ficou tarde para Iracema colocá-los no colo. Se pudesse escolher, diz ela, preferiria ficar ali, olhando o movimento da rua. Cabeça encostada nas grades do portão, mãos firmes nas mesmas barras de ferro, para segurar o corpo em pé. Passaria a manhã de quarta-feira, passaria quanto fosse. Até chegar a sua vez de ir embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:85%;" &gt;Matéria publicada no Correio Popular, de Campinas/SP, em 03/07/2005&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14576618-112164800996185580?l=substantivoproprio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://substantivoproprio.blogspot.com/feeds/112164800996185580/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14576618&amp;postID=112164800996185580&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14576618/posts/default/112164800996185580'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14576618/posts/default/112164800996185580'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://substantivoproprio.blogspot.com/2005/07/iracema-est-inerte.html' title='Iracema está inerte'/><author><name>Tatiana Fávaro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00905213375448839315</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14576618.post-112164817185611484</id><published>2005-05-27T18:54:00.000-03:00</published><updated>2005-07-17T22:36:33.706-03:00</updated><title type='text'>Ninguém fez nada</title><content type='html'>Na manhã da última quarta-feira, a professora Teresa (*) sentiu-se num beco sem saída. O dia começou como outro qualquer, de uma semana qualquer. Terminou em assalto, ameaça de morte, humilhação, susto e um sentimento de impotência e revolta, que até ontem à tarde latejava forte. Feito a dor de cabeça provocada pela noite mal dormida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anteontem, Teresa engrossou as estatísticas da violência. Apanhou para chegar lá. Mas doem menos os hematomas nas costas que a certeza de que seu Boletim de Ocorrência será só mais um entre os quase 3.400 registrados mensalmente pela Polícia Civil, com os roubos de veículos e os chamados ‘roubos comuns’, em Campinas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;Eu tenho sangue correndo&lt;br /&gt;nas veias. É absurdo esse&lt;br /&gt;risco ali, na porta de uma&lt;br /&gt;escola infantil. Isso não&lt;br /&gt;revolta?&lt;br /&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Só no primeiro trimestre de 2005, 2.349 roubos diversos e 1.273 roubos de veículos foram registrados pela mesma Polícia Civil, segundo aponta levantamento da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Trimestre que vem, Teresa vai aparecer no balanço também, tão anônima quanto se sente agora, depois de perder RG, CPF, título de eleitor, carteira de habilitação, cartões de banco, talões de cheque.&lt;br /&gt;&lt;h3&gt;Fim da linha&lt;/h3&gt;A manhã estava escura quando, logo às 6, a professora levantou-se da cama. Ela ainda não sabia sobre os estragos que a chuva da madrugada tinham causado na cidade e em toda a região. Seguiu a rotina e passou o café. Engoliu rapidamente um pedaço de pão, escovou os dentes, beijou o marido e as duas filhas. Ligou o Corsa e foi para a escola infantil próxima à Praça de Esportes Tancredão, no Jardim Novo Campos Elíseos. Ela dá aulas lá há 17 dos 28 anos que trabalha na rede municipal de ensino. Mas não fazia idéia do que a esperava naquele dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo caminho, foi pensando na aluna que deixara de ir ao passeio no shopping, na terça-feira, por falta do pagamento da taxa de transporte. Queria tê-la levado. Mas não podia assumir as despesas de todas as crianças carentes para as quais dá aula. Ali, entre os alunos com idades de 3 a 6 anos, muitos vêm de famílias de baixa renda. A maioria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A aula começava às 7h30. Ao passar em frente ao portão principal da escola – pelo qual entram as crianças – pensou que seria melhor somente virar a esquina e estacionar o carro por ali mesmo, perto da entrada de funcionários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso porque, para chegar ao estacionamento de professores, improvisado em uma quadra de esportes descoberta, teria que seguir até o fim da rua e isso seria muito arriscado: o fim dela fica em frente a um córrego e, ali, o asfalto cedeu. Ficou quase impossível passar de carro pelo trecho, depois da tempestade de quarta-feira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto o poder público aguarda a licitação para consertar a cratera – as obras começam em no máximo 30 dias, segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura – os professores dão um jeito e estacionam seus veículos onde conseguem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao parar o carro perto do pequeno portão de entrada de funcionários, Teresa percebeu que dois rapazes a observavam. “Eles começaram a se aproximar e eu vi que era comigo. Fiquei com medo de ser seqüestrada e saí do carro rapidamente.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A professora até apressou os passos, mas ouviu um dos homens gritar: “Não corre não, filha da p...”. Tentou bater o portão, mas um dos assaltantes se adiantou, e a impediu. Ela já estava subindo a escadaria que a levaria para o pátio, quando o mesmo homem a puxou pela blusa. Arrastou-a escada abaixo até perto do portão, em segundos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele segurava um revólver pequeno, prateado.” Jogou-a de bruços e bateu forte em suas costas. Teresa não sabe se foi com a mão ou a arma. Chorava enquanto o rapaz, já ajudado pelo parceiro, quebrou a alça da bolsa que ela carregava a tiracolo, num puxão só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem tinha percebido, mas a chave do carro ainda estava em uma de suas mãos quando ela caiu no chão. Jogou-a longe. Um dos rapazes pegou. Antes de deixar a rua da escola, os assaltantes bateram o Corsa num veículo que estava virando a esquina. Fugiram.&lt;br /&gt;&lt;h3&gt;Impotência&lt;/h3&gt;Duas funcionárias da escola ficaram paralisadas enquanto assistiam ao ato brutal. “Não sabíamos o que fazer.” Viviane (*), também professora e amiga de Teresa, não quer mais voltar ao local, bem como as outras seis mulheres que dão aulas ali. A diretora, vítima de assalto no mesmo lugar, no ano passado, não sabe mais a quem recorrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã de quarta, não havia policiais no bairro. As funcionárias ligaram para o 190. Ninguém apareceu. Viviane pegou seu carro e levou Teresa a duas delegacias, até encontrarem, às 9 horas, “o lugar certo para registrar o Boletim de Ocorrência”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também não havia guardas para zelar pelo prédio municipal. De acordo com o coordenador do posto da GM que responde por aquela região, todos os dias há ronda escolar nos horários de pico (entrada e saída de alunos). A infra-estrutura da Regional 8, porém, contabiliza apenas 40 homens e três viaturas, para 74 bairros daquelas redondezas.&lt;br /&gt;&lt;h3&gt;Silêncio e revolta&lt;br /&gt;&lt;/h3&gt;Teresa engole seco. Pára de contar a história e enxuga as lágrimas. Os olhos de seu marido marejam. Ela está traumatizada. Ele, alterna momentos de ódio e resignação. À mesa redonda, no centro da sala de estar, paira o silêncio - alguns segundos. “Somos batalhadores. Ela não reagiu. E nós não vamos procurar quem fez isso. Não queremos consertar a sociedade. Mas quem pode fazer isso não está fazendo”, diz o marido da professora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A família já foi vítima de assalto, há muitos anos. Levaram tudo o que eles tinham em casa. Outra vez, ao chegarem em casa à noite, o marido e uma das filhas de Teresa se depararam com um rapaz armado. A garota estava fora do carro; o pai, dentro. “Não tive dúvida. Joguei o carro em cima do cara. Eu queria esmagá-lo no muro. Ele fugiu. No dia seguinte, ainda tive que ouvir do policial que dei sorte. Perguntei a ele se ele tinha mulher, filhos. Se eu não puder salvar minha família, que tipo de homem sou eu?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez o policial que pediu para o marido de Teresa não reagir tenha se baseado em casos como o do engenheiro civil Franciso César Bortolai, de 51 anos, morto em dezembro de 2004 com um tiro no peito ao chegar em casa, no Jardim Santa Odila, e reagir a um assalto. “Mas eu tenho sangue correndo nas veias. Não aconteceu o pior. Nem daquela vez, nem na escola, graças a Deus. Agora, é absurdo esse risco ali, na porta de uma escola infantil. Isso não revolta?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem, enquanto muitos contabilizavam os prejuízos causados pela forte chuva de quarta-feira, sob o sol ameno do outono, a professora fechou as janelas de casa. Passou corrente e cadeado no portão. Trancou a porta. Voltou mentalmente à escuridão da manhã quarta-feira. E ao beco sem saída. Na tentativa de reencontrar sua identidade - não a de papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:85%;" &gt;(*) nomes fictícios, para preservar as fontes&lt;br /&gt;Matéria publicada no Correio Popular, de Campinas/SP, no dia 27/05/2005&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14576618-112164817185611484?l=substantivoproprio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://substantivoproprio.blogspot.com/feeds/112164817185611484/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14576618&amp;postID=112164817185611484&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14576618/posts/default/112164817185611484'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14576618/posts/default/112164817185611484'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://substantivoproprio.blogspot.com/2005/05/ningum-fez-nada.html' title='Ninguém fez nada'/><author><name>Tatiana Fávaro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00905213375448839315</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14576618.post-112165185516064715</id><published>2005-05-15T22:54:00.000-03:00</published><updated>2005-07-17T23:16:38.173-03:00</updated><title type='text'>"A gente dá porque quer"</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-style: italic; font-weight: bold;"&gt;Uma viagem pela Igreja Universal do Reino de Deus, na avenida João Jorge, em Campinas&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nasci em uma família católica. Fui batizada, fiz primeira comunhão, aprendi a rezar. Cresci e, de repente, comecei a questionar alguns dogmas. Afastei-me da igreja, mas não de Deus. Curiosa inveterada, já vi coisas que até Ele duvida nessa seara abençoada. Li, visitei, fiz questão de sentir na pele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Instigada pelo convite de Semana 3 – de escrever minhas impressões sobre um culto evangélico –, entrei dia desses numa igreja do gênero. Igreja Universal do Reino de Deus, na avenida João Jorge. De fora, parece um shopping center. O tamanho do templo faz o fiel lembrar o tempo inteiro que é pequeno, “um ninguém na multidão”, como se canta lá dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não entrei como repórter, querendo saber onde é usado o dízimo ou cheia de perguntas que para eles têm gosto de café requentado. Despi-me de pré-conceitos e pisei no templo como uma ovelha desgarrada, que procura abrigo – para ver o que aquele lugar e aquelas pessoas poderiam me oferecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estrutura é profissional. Amplo estacionamento, lanchonete, livraria e dois banheiros ficam no subsolo do prédio, que abre suas portas logo depois das 6 horas e fecha, às vezes, depois das 23 horas. No primeiro andar há um salão, lugar para 4 mil pessoas no qual são realizadas diariamente as reuniões – cada dia com um tema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São 18h15. Entro devagarinho e vou me aproximando do altar, onde cinco pastores vestidos de branco conversam com fiéis. Terça-feira é dia de vestir ao menos uma peça de roupa branca para ir ao culto. E quem me conta isso é Adriana*, uma moça bonita, sentada na turma do gargarejo. Ela está lá, guardando lugar desde as 17 horas. Freqüenta a igreja há dois anos, todos os dias. Chegou ali pensando em desistir da vida. “Foi a última porta na qual eu bati. E fui acolhida”, afirma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana tinha uma vida de fazer inveja – pelo menos aparentemente. Diplomada, tinha família, emprego e vida social. Era feliz, mas de uma felicidade vazia, me conta. Depois de ser assaltada, ameaçada e perder o dinheiro que tinha, acabou perdendo também a vontade de viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Deus salva – e a mídia também. E a moça viu um dos programas de tevê da Igreja Universal – exibidos diariamente em tevê aberta – e resolveu procurar ajuda ali, onde tanta gente dizia ter sido ajudada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela, como muitos dentro do templo, não faz jus à imagem que se prega por aí, de que evangélico é alguém sem instrução. No templo há desde pessoas sem nenhuma condição financeira ou estudo até donos de grifes no Cambuí, professores, médicos, doutores. “Eu me visto bem, me arrumo, estudo, trabalho. Mas tudo isso é para o meu Deus”, diz Adriana, do alto de um salto 8 que repica até o altar, pra onde vai me levando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pego a fila e, enquanto esperamos na escada de granito, vira e mexe alguém se ajoelha ao nosso lado, apóia os cotovelos nos degraus, abaixa a cabeça e a pousa entre as mãos, rezando alto como se assim ficasse mais fácil para Deus ouvir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;h3&gt;Fragilidade ou fraqueza?&lt;/h3&gt;Quando dou conta, Adriana já me pôs à frente de um pastor. Antes do culto é comum esses soldados do exército de Deus darem uma hora de seu tempo para atender fiéis e novatos, como eu era ali. Não minto nem invento. Digo ao pastor apenas que não tenho uma história de prostituição, vício ou falência para contar e que cheguei na igreja por curiosidade. “Ninguém doente na família?”, me pergunta. Não. “Tudo bem em casa?”, tenta novamente e encontra outra negativa. “Então está sem trabalho?”. Eu balanço a cabeça de um lado para o outro. “Então o que te trouxe aqui?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me dá as boas vindas e não preciso muito mais que 20 minutos de culto para notar que a indignação velada do pastor tem motivo: ali, sou um peixe fora d’água. A maioria dos fiéis chega à Universal com uma história muito crítica – de dor, sofrimento, angústia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três ou quatro conversas além da que tive com Adriana me mostram que só o fato de ser uma igreja com as portas abertas o dia todo já faz a diferença. “Se você chegar aqui precisando de ajuda, a qualquer hora do dia, haverá alguém pra te atender”, dizem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A contrapartida não é pouca, mas quem se importa? “Dizem aí fora que eles tiram dinheiro da gente. Não são eles que tiram. A gente dá porque quer”, diz Adriana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como principiante, ninguém me abordou para falar sobre dízimo. Ninguém me perguntou sobre o meu holerite. Mas insistiram na necessidade de ser fiel aos propósitos. Ok, mas o que são propósitos, pergunto eu à minha “veterana”. “Se você tem alguém doente na família, você faz um sacrifício para essa pessoa ficar bem. Desprender-se do seu dinheiro é um sacrifício”, diz, contando que cada um dá o que pode. E que tem gente que pode, às vezes, até cifras de seis dígitos. Depois de duas horas de culto e três cultos numa semana – vi a sessão do descarrego, a celebração de louvor e adoração e a terapia do amor – a fragilidade da assembléia vai ficando cada vez mais evidente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há crença de salvação apenas na voz em coro que grita “Queima! Queima!” para tirar o Satanás do corpo besuntado de sal no altar. A força do credo está também na dor das lágrimas e da oração de dona Luiza*, mãe de três filhos – um drogado, uma mãe solteira e outro, bom coração, mas desempregado. Na tentativa de Márcio e Luciana* reconstruírem seu casamento, que anda abalado depois de cinco anos e meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fé ali naquele lugar impressiona. Arrepia. E atesta uma carência pungente, crescente no ser humano. Essa busca pelo alimento da alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recobro a razão. Talvez eu seja mesmo uma filha rebelde e procure o alento divino. Mas estou ali pra fazer minha reportagem – que virou esta crônica. Procuro o pastor-responsável, pastor Alexandre. Ele sempre está em reuniões. Depois de três tentativas de encontrá-lo pessoalmente, ligo para tentar marcar entrevista e uma pastora sugere: “Mande um e-mail para ele”. E eu digo que meu receio é de que ele não responda. “O medo derrota as pessoas”, ouço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho pro céu, evoco a benevolência divina. Mando e-mail, explico ao pastor que estou escrevendo sobre o culto, sobre a fé que me surpreendeu e que gostaria de mais informações sobre sua igreja. Mas ele é direto e afirma que “a Igreja Universal do Reino de Deus possui seus meios de comunicações próprios, como Rede Record, Rede Mulher, Rede Família, rádio e ‘A Folha Universal’”. “Não temos necessidade de divulgar nosso trabalho e nossas particularidades em outros meios que não sejam os nossos”, diz. Depois de uma segunda tentativa virtual, o pastor encerra o assunto: “A Igreja Universal não concederá fotos e nem informações”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até tento ir à igreja mais uma vez, perto da hora do culto. Mas o zelo com informações, números e imagens parece ser uma barreira intransponível. Desisto. Pego o elevador, vou até o subsolo e descubro que não tenho como sair. O estacionamento está lotado e a verdade lateja, nua e crua: até na casa do Senhor tem engarrafamento.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:85%;" &gt;&lt;br /&gt;--&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Nomes fictícios para preservar as fontes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Publicada na revista Semana 3 em dezembro de 2004.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14576618-112165185516064715?l=substantivoproprio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://substantivoproprio.blogspot.com/feeds/112165185516064715/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14576618&amp;postID=112165185516064715&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14576618/posts/default/112165185516064715'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14576618/posts/default/112165185516064715'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://substantivoproprio.blogspot.com/2005/05/gente-d-porque-quer.html' title='&quot;A gente dá porque quer&quot;'/><author><name>Tatiana Fávaro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00905213375448839315</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14576618.post-112165238384592355</id><published>2005-05-10T23:04:00.000-03:00</published><updated>2005-07-17T23:06:23.846-03:00</updated><title type='text'>Reza, Maria</title><content type='html'>Essa Maria é Maria de Jesus. Ferreira, ainda por cima. Católica. E nascida no Espírito Santo. Religião à parte, algo me diz que só cercada assim de tanta bênção pra chegar, como Vozinha, aos 105 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentada no sofá de uma casa de fundos da Rua Engenheiro Aloísio Marques, no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo, Maria de Jesus Ferreira junta as mãos em uma espécie de prece. Encosta o rosto nelas e os olhos ficam úmidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;Quanta saudade&lt;br /&gt;nessa vida,&lt;br /&gt;meu Deus!&lt;br /&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;As mãos e pés da mulher são grandes e lembram os de personagens eternizados por Tarsila do Amaral. Só que as mãos de Maria de Jesus puxaram muita enxada em fazendas de Minas Gerais. Inclusive em uma dos parentes do presidente Tancredo Neves, conta ela, orgulhosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pés já levaram Vozinha, como é chamada, de volta a Campo Belo (MG), onde cresceu, casou, teve alguns de seus 21 filhos e viveu a maior parte de sua história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascida no interior do Espírito Santo, seguiu para as terras mineiras aos 16 anos, com a mãe, transferida para uma das fazendas de Campo Belo. Levou consigo um vaso de barro feito pela avó escrava. Lá, encontrou João Coco, capataz de uma das fazendas na qual trabalhou. Casou-se com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olhou, tinha de casar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há 40 anos, Vozinha chegou à capital paulista para morar com uma filha. Ficou 30 anos sem retornar à cidade que a acolheu ainda menina. "Quando voltou para lá, em setembro de 1987, um amigo do João Coco até desmaiou ao vê-la", conta Ana Regina, que enfrentou as oito horas de viagem de ônibus com a avó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ir para Campo Belo foi o único jeito de fazer a Vozinha parar de viver no passado, diz ela. A presença de Maria de Jesus causou tamanho furor na pequena cidade que teve até procissão para vê-la na missa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ninguém acreditava que eu pudesse estar viva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já faz cinco anos que Vozinha não volta a Campo Belo. Mas "se Deus quiser", esse ano ela repete a dose, garante sem pestanejar ou se importar com mais uma longa viagem de ônibus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;Se doer as costas,&lt;br /&gt;vou deitada.&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Segundo a neta Ana Regina, viajar e passear são as predileções de Vozinha. Outro dia ela fugiu de casa e os netos só conseguiram encontrá-la em Limeira, quase um mês depois. E ela se importa? Nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Só estava passeando - explica Maria, rindo como menina das mais travessas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vozinha tem dois sonhos: andar de avião e conhecer o cantor Daniel. Quando o cantor aparece na televisão, ela até chora. Católica, Maria de Jesus reza todas as noites. E quando reza pelo cantor, pede em voz alta e não deixa ninguém dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher franzina, mas com resistência para viajar quilômetros e quilômetros para ver as pessoas das quais sente saudade, ora não só por Daniel. Suas preces são pelos seis filhos ainda vivos, 79 netos, bisnetos e tataranetos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E reza também por Apolo, o cão pastor que, mesmo machucado, ainda toma conta dela impedindo que Vozinha "fuja" da família e de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes, conta ela, reza até por João Coco. Pela família Neves. Pelos amigos que a ajudam tanto. E pelo mundo, tão diferente daquele que ela conheceu no Espírito Santo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:85%;" &gt;A reportagem sobre essa Vozinha querida foi publicada no Estadão em 18 de janeiro de 2002, Editoria de Cidades, Suplemento Seu Bairro Sul. Revisitada aqui, com cores de substantivo próprio.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14576618-112165238384592355?l=substantivoproprio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://substantivoproprio.blogspot.com/feeds/112165238384592355/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14576618&amp;postID=112165238384592355&amp;isPopup=true' title='42 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14576618/posts/default/112165238384592355'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14576618/posts/default/112165238384592355'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://substantivoproprio.blogspot.com/2005/05/reza-maria.html' title='Reza, Maria'/><author><name>Tatiana Fávaro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00905213375448839315</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>42</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14576618.post-112165283627938687</id><published>2005-05-09T23:12:00.000-03:00</published><updated>2005-07-17T23:13:56.280-03:00</updated><title type='text'>Pelas mãos de Mário</title><content type='html'>"Jão" e eu rodamos muito com o carro do jornal na Aclimação naquele dezembro de 2001 até encontrar a casa do seo Mário. Jão era o motorista e eu, a repórter de um suplemento tentando achar uma história. Depois de algumas voltas e mais ou menos meia hora, descobrimos não só o prédio antigo, muito discreto, da Rua Batista Cepellos, mas um artista nato ali dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desenhista desde criança, Mário - que é Beltrame, de sobrenome - já usou creiom e tinta a óleo para expressar sua sensibilidade no papel ou na tela. Há quase 20 anos, conheceu um mundo além do lápis e do pincel. E, enquanto me contava essa e outras histórias, a agulha de arame incandescente do pirógrafo, ali na sua mão firme, transformava pedaços de madeira em arte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;Fico louco quando&lt;br /&gt;alguém fala que isso&lt;br /&gt;tudo é artesanato&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;A arte do seo Mário beira o acadêmico. Se engana quem imagina aquelas peças com furinhos escuros que servem apenas para delinear um contorno banal, que queima a madeira. Os traços aprendidos pelo autodidata na infância e aperfeiçoados aos 13 anos, nas aulas de creiom com o professor Higínio Acquaroni, são clássicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não uso o pirógrafo muito quente, para não deixar a madeira com relevo - explica Mário, enquanto conversamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A técnica dá certo. Eu, que já me arrisquei a pintar, admiro a facilidade do seo Mário, que não revela a idade mas passa dos 60. É fácil ficar vidrada ali, no movimento da ponta de arame da caneta elétrica correndo macio como grafite. Sem ferir a madeira. Devagar, o rosto de Cora Coralina, ganha luz e sombra. Ganha vida na reprodução do retrato, feita no quartinho de empregada do apartamento antigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gal Costa, Arrelia, Cauby Peixoto, Pixinguinha, Clementina de Jesus e até o ex-presidente João Figueiredo me olham, do alto das paredes da sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fico louco quando alguém fala que isso tudo é artesanato. - ralha seo Mário, perseverante na tentativa de popularizar a pirogravura artística.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um anônimo premiado. O Ébrio - um de seus quadros - e Latoya, o rosto da irmã de Michael Jackson e a gravura preferida do artista, já estiveram no topo do hanking de salões internacionais da década de 90.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele dezembro de 2001, porém, o artista dividia seu tempo entre pirografar - seu grande prazer - e dar aulas de pintura a óleo no salão da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Aclimação. Afinal, como seo Mário repetia, bem-humorado, arte mesmo é viver da aposentadoria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;A reportagem sobre Mário Beltrame foi publicada no Estadão em 28 de dezembro de 2001, Editoria de Cidades, Suplemento Seu Bairro Sul. Mas aqui virou crônica, história e substantivo próprio.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14576618-112165283627938687?l=substantivoproprio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://substantivoproprio.blogspot.com/feeds/112165283627938687/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14576618&amp;postID=112165283627938687&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14576618/posts/default/112165283627938687'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14576618/posts/default/112165283627938687'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://substantivoproprio.blogspot.com/2005/05/pelas-mos-de-mrio.html' title='Pelas mãos de Mário'/><author><name>Tatiana Fávaro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00905213375448839315</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-14576618.post-112165294044810566</id><published>2005-05-08T23:14:00.000-03:00</published><updated>2005-07-17T23:15:40.450-03:00</updated><title type='text'>A dor de um José</title><content type='html'>De longe, Zé era só mais um Zé na cena urbana. Bêbado. Deitado no chão. Olhos cerrados e mão esquerda na altura do rim. Pedi pro motorista do jornal parar. Bastou um dedo de prosa pra eu descobrir que seu estado não era conseqüência do excesso de cachaça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário, a pinga amortecia a dor cortante do câncer.E a dor maior, da solidão. Da injustiça. Da falta de sensibilidade do mundo&lt;br /&gt;que passava quase pisando sobre ele. Rolo compressor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O alagoano de 66 anos estava ali graças à carona da da ambulância do único hospital público de Jundiaí. Ali ao lado, o camburão azul e branco denunciava: a Guarda Municipal tinha ido buscar o migrante e zelar pela paz do bairro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De mansinho, fui chegando perto. Fiquei de cócoras. A blusa do agasalho azul marinho estava levantada até a altura do peito. Olhei pras feridas naquela barriga e senti o mau cheiro. Vriei pro lado e, pronto, nova tentativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mirei fundo nos olhos do velhote e perguntei o nome dele. "José". José de quê? - como se àquela altura do campeonato fosse preciso mesmo saber o sobrenome. "Só José", disse a voz rouca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentei-me na calçada um instante. Os guardas me olharam torto, talvez para me lembrar de que não tinham o dia todo para ficar ali. Nem eu, oras. Mas o que importava?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E José me contou que chegara a Jundiaí à procura de um parente, do qual se lembrava pouco. Não o encontrou e, como não tinha pra onde ir, nem dinheiro pra voltar, ficou na rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passou uma noite no mercado municipal, protegido do frio pelas folhas de jornal que conseguira com os donos das bancas de frutas. Enquanto ele falava, meu pensamento ia longe: José podia ter dormido coberto pelos textos que eu tinha escrito no diário em que eu trabalhava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;A barriga já tava&lt;br /&gt;sarando e falei pro&lt;br /&gt;médico me dar alta,&lt;br /&gt;que eu cuidava.&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A barriga continuava descoberta e aquilo me incomodava. Apesar do vento frio de outono, o sol batia na gente e fazia o cheiro daquelas feridas ficar quase insuportável. Com pouca vontade, José falou do câncer, que já nem sabia mais onde era. Disse que foi ao hospital por causa dos ferimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fui internado, moça. Mas deu uma agonia ficar lá. A barriga já tava sarando e falei pro médico me dar alta, que eu cuidava. O doutor liberou, mas como a perna também tá meio ruim, pedi pro moço que solta as ambulância pra me trazer pra casa - explicou ele em casa, que era aquele pedaço de calçada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aconselhei José a procurar o posto de saúde do bairro. Mas os guardas disseram que o levariam de volta para o hospital de caridade. Caridade? Ri. E o fotógrafo que estava comigo lembrou do horário: ele estava proibido de fazer hora-extra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrei no carro do jornal. Na redação, liguei para o responsável hospital e o "outro lado" - como chamamos no jargão jornalístico - era cheio de contradições. Ninguém se lembrava daquele Zé, mas diziam que ele tinha fugido, pra talvez fugir da culpa. Mas o Zé, aquele, ia voltar. E então?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei pra casa com o peito apertado, não consegui dormir. Virando de um lado para outro, imaginei que o velhote não agüentaria muito tempo no hospital. Sairia de lá, nem que fosse, dessa vez sim, pra fugir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Torci para aquele Zé ter forças para fugir, quem sabe, até Alagoas. Para encontrar alguém da família, nem que fosse a última coisa a fazer na vida. Mas talvez Zé não agüentasse, e voltasse para o mercado. Onde passaria mais uma madrugada embrulhado no jornal. Talvez coberto com a própria história.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/14576618-112165294044810566?l=substantivoproprio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://substantivoproprio.blogspot.com/feeds/112165294044810566/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=14576618&amp;postID=112165294044810566&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14576618/posts/default/112165294044810566'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/14576618/posts/default/112165294044810566'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://substantivoproprio.blogspot.com/2005/05/dor-de-um-jos.html' title='A dor de um José'/><author><name>Tatiana Fávaro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00905213375448839315</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
